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Ano 42 - Nº 2126
11 de Junho de 2026
O que realmente significa viver bem? Para alguns, a resposta está na segurança de uma rotina planejada. Para outros, está na coragem de explorar novos horizontes e transformar sonhos em projetos de vida. A reportagem GP conversou com Camila Santos Braga Magalhães, 31, psicóloga, musicista e criadora de conteúdo e com Otávio Vieira Braga Magalhães, 30, musicista, criador de conteúdo, marketing e edição de vídeo, cujos pais residem nos bairros Natividade, em Florestal/MG e Providência, em Pará de Minas que são os seus pontos de apoio residencial, atualmente. Camila relatou sobre viagens que eles já fizeram e vão fazer agora, para a Argentina, documentando tudo, por meio das redes sociais o projeto do Explore a Rota. Confira o resumo da longa e interessante entrevista que, por uma questão de espaço, teve de ser resumida.
“Nossa história começou ainda na adolescência. Nós éramos melhores amigos desde os 15 anos e, nessa época, o Otávio já tinha uma banda e compunha músicas que falavam sobre não se acomodar em um só lugar, sobre o quanto o mundo é grandioso e cheio de possibilidades. Depois disso, eu me mudei para Belo Horizonte, para estudar e, dentro da faculdade, comecei a me interessar muito pela forma como cada cultura, cada costume e cada ambiente moldam o ser humano. Isso despertou em mim uma vontade muito grande de conhecer diferentes realidades e explorar o mundo de uma forma mais profunda. 10 anos depois, nos reencontramos, começamos a namorar durante 2 anos, até nos casarmos. Na lua de mel, em São Bento do Sapucaí/SP e Campos do Jordão/SP, que começamos a documentar tudo, nascendo o canal e o projeto do Explore a Rota, transformando tudo em um estilo de vida e trabalho. Formamos a dupla musical Explore Rock Band - o Otávio canta e toca violão e eu, percussão. Chegamos a fazer de dez a quinze shows por mês, em cidades diferentes. Como a estrada virou a nossa casa, pensamos em comprar uma Kombi, transformando-a em uma casa, um motorhome. Ao compartilhar os 1ºs vídeos e fotos, vimos que as pessoas se conectavam com aquilo. Aí, começamos a levar o projeto Explore a Rota mais a sério, já que ele poderia inspirar mais pessoas. Mas era algo muito simples, sem grandes equipamentos ou pretensão. A gente só queria registrar o que estava vivendo e compartilhar um pouco da sensação de liberdade e conexão com a estrada. Aos poucos, começaram a surgir comentários de pessoas dizendo que se sentiram inspiradas. Como não tentamos parecer perfeitos, apenas sendo nós mesmos, talvez tenha sido isso que aproximou tanta gente do projeto. Acho que a grande virada aconteceu quando compramos a Kombi e começamos a mostrar todo o processo de transformá-la em casa, com os desafios e cada etapa da construção. Apesar desse estilo de vida ser muito popular em alguns países, no Brasil ainda é algo que ainda está engatinhando. A dimensão ficou ainda mais clara, quando começaram a surgir propostas de trabalho, presentes de seguidores e parcerias com marcas ligadas ao universo do caravanismo e das viagens. E sempre que precisávamos de ajuda, dicas ou orientações, sempre aparecia alguém disposto a ajudar. Existe um senso muito forte de parceria na estrada. Mais do que mostrar viagens, queremos inspirar pessoas a se conectarem mais com o mundo, mesmo que ainda estejam dentro de casa, sonhando com isso,” conta Camila.
POR QUE ESSA MUDANÇA? - “Acho que ela começou, quando perdemos pessoas da família e amigos, ainda muito jovens, com a vida inteira pela frente. Isso mexeu, profundamente, com a gente e começamos a pensar sobre como a vida é imprevisível e sobre passar a maior parte da existência, apenas sobrevivendo na rotina, sem realmente viver aquilo que gostaríamos. Nós trabalhávamos muito, vivíamos entre escritório, compromissos e uma rotina extremamente acelerada. Aí, começamos a nos perguntar: E se um dia tudo acabar sem a gente conhecer quase nada do mundo e de nós mesmos? Nós não queríamos esperar um momento ideal, porque talvez ele nunca chegasse. Passamos a valorizar muito mais o céu, a natureza, uma conversa profunda, o silêncio da estrada, um café compartilhado sob o nascer do sol... Vivendo dentro do pequeno espaço de uma Kombi, muita coisa é reduzida ao essencial: dois garfos, duas facas, algumas roupas e presença verdadeira. Na estrada aprendemos muito sobre isso. Viver com menos pressa não significa deixar de ter sonhos ou objetivos.”
E AS FAMÍLIAS DE VOCÊS? – “Nossas famílias sempre nos apoiaram e acompanham todo esse processo, desde o começo. O Explore a Rota compartilha a nossa rotina, mas preserva o que é mais íntimo. A Laka, nossa cachorrinha, é que é a estrela do canal. Ela é nossa parceira de estrada e basta ouvir o motor da Kombi ligando, para correr e entrar 1º (risos). O lema que guia o Explore a Rota é: O caminho já é a viagem. Pelo fato de estarmos viajando na nossa própria casa, conseguimos viver os lugares com mais calma, sem aquela pressa típica do turismo tradicional, sem um roteiro rígido ou uma data marcada para pegar um voo de volta. Isso nos permite conviver mais com outros viajantes, com moradores locais, conhecendo as culturas de uma forma mais profunda. Nos dá acesso também a lugares onde muitas vezes não existem hotéis ou pousadas por perto. Como temos uma estrutura de casa dentro da Kombi, conseguimos cozinhar, tomar banho e trabalhar on-line, mesmo estando na estrada. Mas existe uma rotina por trás da liberdade, como encontrar água para abastecer as caixas da Kombi, manter as baterias carregadas para a geladeira e a iluminação, procurar lugares seguros para dormir, lidar com burocracias de fronteira, etc.. Ou seja, a estrada não é apenas algo romântico, porque existe responsabilidade, adaptação e aprendizado constante.”
“ATÉ ONDE SABEMOS, NINGUÉM DA NOSSA CIDADE SAIU DE KOMBI, RUMO AO FIM DO MUNDO”
PARCEIROS - “Algo muito bonito que aconteceu foi que algumas empresas da nossa Pará de Minas acreditaram em nós, antes mesmo de tudo acontecer. A Paraju, a Elmig, a Retocar, o Gás Paraense e a Vitribox enxergaram valor no projeto e decidiram caminhar junto com a gente e isso fez toda a diferença. Uma parte muito importante na montagem da Kombi foi a Escola Municipal de Artes, onde aprendemos marcenaria. O Bruno, o Pedro e a diretora Érica Gaede nos receberam de braços abertos nos ensinaram um ofício que hoje faz parte da nossa vida. Também aprendemos muito sobre mecânica com o mecâncio Júlio, que sempre teve paciência em nos ensinar. Participamos da pintura da Kombi, juntamente com o pessoal da Retocar, especialmente o Daniel. Toda a parte de funilaria foi feita pela equipe da Beto e Cia., em Itaúna/MG. O Beto e o Rafael são pessoas de um coração enorme, muito humanos. Enfim, a nossa Kombi carrega muito mais que madeira, tinta e ferramentas. Ela carrega a ajuda, o carinho, a confiança e a torcida de muitas pessoas que decidiram embarcar nesse sonho junto com a gente. Depois de mais de um ano de muito trabalho produzindo conteúdo, conseguimos monetizar o YouTube e começamos a receber uma pequena renda, por meio da plataforma. Também temos as parcerias e publis com marcas relacionadas ao universo do caravanismo, campismo e viagem, que ajudam muito na continuidade do projeto.”
VAMOS FALAR DA MÚSICA? - “Nós fazemos shows em bares, restaurantes, casamentos, aniversários, eventos e buscamos levar isso para a estrada também, realizando apresentações pelos lugares por onde passamos. Porém, o sertanejo é muito forte e, às vezes, acaba sendo mais difícil encontrar espaço para um trabalho como o nosso, mais voltado para o rock acústico, principalmente em bares e restaurantes. Mas seguimos acreditando na nossa identidade musical e buscando lugares e públicos que se conectem com isso.”
ONDE QUEREM CHEGAR? - “Queremos chegar ao extremo sul do continente, a Terra do Fogo, em Ushuaia/Argentina, mas o mais importante é tudo aquilo que vamos nos tornar, até chegar lá. Estamos muito próximos de realizar esse sonho, pois falta pouco para concluirmos nossa Kombihome e iniciarmos a viagem, algo pioneiro na nossa região. Até onde sabemos, ninguém da nossa cidade saiu de Kombi rumo ao fim do mundo, documentando essa jornada e transformando-a em conteúdo, música, cultura e conexão com as pessoas. O maior medo é justamente o desconhecido, mas também existe o medo dos desafios reais da estrada, dos imprevistos, das dificuldades financeiras, da distância da família e até do julgamento das pessoas. Mas a gente não pode deixar que o medo paralise a nossa vida inteira. Porém, não romantize demais, porque liberdade também dá trabalho!”
A psicóloga, musicista e criadora de conteúdo Camila Santos e o musicista, criador de conteúdo, marketing e edição de vídeo Otávio Magalhães: “E se um dia tudo acabar, sem a gente conhecer quase nada do mundo e de nós mesmos?”