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Ano 42 - Nº 2143

09 de Outubro de 2026

2143

“SER PADRE É ESTAR DISPOSTO A GASTAR A VIDA PELAS PESSOAS”

Notícias

14/10/2026
“SER PADRE É ESTAR DISPOSTO A GASTAR A VIDA PELAS PESSOAS”

A reportagem GP conversou com Ronivon Plotasio Amorim, 32, presbítero da Diocese de Divinópolis/MG, graduado em Filosofia e Teologia pela Puc Minas e especialista em Libras - Tradução e Interpretação; Logoterapia e Análise Existencial Frankliana; Educação Especial Avançada, que foi ordenado padre, no dia 19 de setembro, no Santuário Nossa Senhora da Piedade. Padre Ronivon é filho de Antônio José de Amorim, 54, construtor civil, e Renata Severino Plotasio, 53, diarista, e tem três irmãos vivos: Hayllander, 27 e Tiago, 35, ambos pintores, e Cristina Ester, 31, auxiliar de produção, residentes no bairro Santos Dumont. Confira o que ele disse, em resumo por uma questão de espaço, à reportagem GP.

“Nasci em 21 de janeiro de 1994, em Pará de Minas, e foi nessa região que cresci. Meu pai era retireiro e tratorista (tirava leite e dirigia tratores) e a minha infância foi marcada principalmente pela convivência com a minha família nas comunidades rurais próximas a Pará de Minas, como Limas de Igaratinga, Matinha, Mata do Cedro, Gomes, Paraíso e outras. Minha adolescência foi marcada pela vida comunitária e pela fé. Embora morasse na roça, frequentávamos muito a casa da minha avó, no bairro Santos Dumont. Nesse tempo, conheci o projeto Amar e Servir da Comunidade Católica e ali amadureci a vocação ao ministério ordenado. Tenho muitas lembranças simples, mas muito importantes dessa época. Acredito que a vocação não começa necessariamente no dia em que uma pessoa entra no seminário. Ela vai sendo construída ao longo da vida, nas relações familiares, nas experiências, nas alegrias, nas dificuldades e nas perguntas que vamos fazendo sobre o sentido da nossa existência. Também tenho a alegria de ser tio de oito sobrinhos, o que me permite experimentar a família de uma maneira muito bonita. Minha trajetória acadêmica foi bastante diversificada. Estudei em escolas públicas da rede municipal e estadual até o 9º ano. O ensino médio eu tive a graça de ganhar uma bolsa de estudos no Colégio Sagrado Coração de Maria, onde, com muito esforço, após 5 anos, consegui concluir o ensino médio. Concomitantemente com os Encontros Vocacionais (discernimento para ingressar no Seminário), fiz três vestibulares: * educação física, * filosofia e * psicologia. Passei em todos, mas queria mesmo era ser padre. Após ser admitido no Seminário Diocesano, em fevereiro de 2017, fiz filosofia e teologia pela Puc Minas e, posteriormente, me especializei em Libras - tradução e interpretação, além de outras formações na área humana como logoterapia e análise existencial Frankliana; educação especial avançada. Com o tempo, porém, fui percebendo que a pergunta mais importante não era apenas O que eu quero fazer da minha vida?, mas O que Deus está me chamando a realizar com a minha vida? Essa mudança de perspectiva foi muito importante,” apresenta-se padre Ronivon.

“A VIDA SACERDOTAL EXIGE RENÚNCIAS E NÃO É UM CAMINHO
QUE PODE SER COMPREENDIDO OLHANDO DE FORA”

COMO A VOCAÇÃO COMEÇOU? – “A 1ª vez que eu falei que queria ser padre foi aos 6 anos de idade. Era o dia do meu batismo e também foi a 1ª vez que tive contato com um padre na minha vida. A partir de então, fui nutrido por meus pais, avós e padrinhos quanto a possível vocação sacerdotal. Já na adolescência, a vocação foi amadurecendo à medida que eu me aproximava mais da igreja, participava da vida pastoral e na Comunidade Amar e Servir buscava compreender aquilo que Deus estava colocando no meu coração. O que foi despertando esse chamado foi justamente a percepção de que eu queria entregar minha vida a algo maior do que meus próprios projetos e servir as pessoas, conduzindo-as ao encontro com Jesus Cristo. Foram várias pessoas e experiências decisivas para eu escolher esse caminho. Algumas nos incentivam, outras nos questionam, algumas nos corrigem e outras simplesmente permanecem ao nosso lado. Tudo isso contribui para o discernimento. Mas algumas pessoas foram mais presentes. Meus pais, os missionários da Comunidade Amar e Servir, mais precisamente o fundador, Geraldo Luiz Batista. Como acontece com muitas famílias, houve sentimentos diferentes. Uma decisão como essa traz alegria, mas também preocupações, perguntas e até inseguranças. Muitos se alegraram com esse meu desejo. Contudo, outros questionaram: Tem certeza que é isso mesmo que você quer? Mas, aos poucos, fui tomando consciência de que a vida sacerdotal exige renúncias e não é um caminho que pode ser compreendido olhando de fora. Aos poucos, porém, minha família foi percebendo que aquilo não era simplesmente uma escolha profissional, mas uma resposta vocacional. Minha caminhada vocacional foi acontecendo dentro da Diocese de Divinópolis/MG, com o acompanhamento vocacional no ano de 2015 e, posteriormente, após ter ingressado no seminário, em 2017, quando passei pelas diferentes etapas da formação, incluindo o propedêutico (2017), o discipulado, cursando a filosofia (2018-2020) e a configuração, cursando a teologia (2021-2024), períodos fundamentais para o amadurecimento humano, espiritual, intelectual e pastoral. Toda a formação acadêmica em filosofia e teologia aconteceu na Puc Minas. Além da formação intelectual, tive experiências pastorais muito importantes, inclusive na Pastoral Diocesana do Surdo, em paróquias e em diferentes comunidades. Em 2025, recebi a ordenação diaconal e, agora, no dia 19 de setembro de 2026, fui ordenado presbítero.”

HÁ MUITOS DESAFIOS? - “Existem desafios humanos, espirituais, acadêmicos, comunitários e pastorais. Também existem momentos de cansaço, dúvidas e necessidade de discernimento. Não acredito que uma vocação verdadeira seja aquela em que nunca existam dificuldades. Pelo contrário, muitas vezes é justamente nas dificuldades que precisamos perguntar novamente: Senhor, é este o caminho? Diante da enfermidade da minha mãe, do meu pai e da minha irmã, em momentos distintos durante a minha formação, confesso que pensei em desistir. Contudo, a perseverança não significa nunca ter dificuldades, mas continuar discernindo e caminhando, mesmo quando não temos todas as respostas. Há ainda uma multidão silenciosa de pessoas que talvez nem saibam o quanto contribuíram: aqueles que rezaram por mim, que me deram uma palavra de incentivo, que me acolheram em uma comunidade ou simplesmente estiveram presentes. Quando comecei, talvez tivesse uma visão mais idealizada do sacerdócio. Hoje, compreendo que ser padre significa estar disposto a gastar a própria vida pelas pessoas: gastar tempo, forças, sonhos, juventude e energia, para ajudar outros a encontrarem Jesus. Também aprendi a reconhecer mais minhas limitações e a depender mais de Deus!”

“QUERO ESTAR PRESENTE NA VIDA DAS COMUNIDADES, ACOMPANHANDO FAMÍLIAS,
JOVENS, CRIANÇAS, IDOSOS E AQUELES QUE SOFREM”

FALE DA ORDENAÇÃO – “Recebi essa notícia com muita alegria, mas também com um profundo senso de responsabilidade. Tive um período de retiro, oração, silêncio e discernimento, buscando chegar à ordenação não apenas preocupado com a cerimônia, mas consciente daquilo que estava assumindo. Foi um dos momentos mais marcantes da minha vida vivenciar a ordenação. No dia, às 9H, no Santuário Nossa Senhora da Piedade, diante da comunidade, da minha família, dos amigos, dos sacerdotes, diáconos, seminaristas e de tantas pessoas que acompanharam minha caminhada, recebi a ordenação presbiteral pela imposição das mãos do bispo Dom Geovane Luís da Silva. Foi muito significativo poder viver esse momento, justamente em Pará de Minas, cidade onde nasci. Olhar para aquele santuário e perceber tantas pessoas reunidas foi uma experiência difícil de colocar em palavras. Para mim, ser padre significa doar a vida. Quero ser um sacerdote próximo das pessoas, disponível para escutar, acolher, celebrar, orientar e caminhar junto. Quero que as pessoas possam encontrar na igreja um espaço, onde sejam acolhidas e onde possam fazer uma experiência concreta do amor de Deus. Meu desejo é exercer o ministério especialmente por meio da celebração da Eucaristia, da Palavra, dos sacramentos, da escuta, da formação e da presença pastoral. Quero também continuar olhando para aqueles que muitas vezes ficam à margem, especialmente as pessoas com deficiência e a comunidade surda, buscando contribuir para que a igreja seja cada vez mais acessível e acolhedora. Meu 1º objetivo é ser padre com fidelidade, aprendendo, diariamente, a exercer esse ministério. Quero estar presente na vida das comunidades, acompanhar as famílias, os jovens, as crianças, os idosos e aqueles que sofrem. Também tenho grande interesse em continuar contribuindo na área da acessibilidade e da inclusão, especialmente, por meio da Libras e da Pastoral do Surdo. Aos jovens que sentem um chamado para a vida sacerdotal ou religiosa, eu diria: Não tenham medo de perguntar a Deus o que Ele sonha para vocês. A vocação não é ausência de dúvidas ou dificuldades. É um caminho de discernimento. E, principalmente, não tenham medo de entregar a vida. Deus não tira a nossa vida, quando nos chama. Ele dá à nossa vida um sentido novo!”

ALGO MAIS? – “Queria apenas reforçar que essa ordenação não é um ponto final. O dia 19 de setembro foi o início de uma nova etapa e, a partir de agora, começa uma nova responsabilidade: aprender todos os dias a ser padre, servir melhor e corresponder à confiança que Deus e a igreja depositam em mim. E quero continuar essa história com os pés no chão, o coração aberto e a vida colocada a serviço!”

* Instagram de padre Ronivon, para quem tiver interesse em acompanhá-lo: @padre.ronivon.amorim

O pará-minense graduado em filosofia e teologia pela Puc Minas e especialista em Libras, Ronivon Amorim, foi ordenado padre no Santuário da Piedade: “Recebi a ordenação presbiteral pela imposição das mãos do bispo Dom Geovane Luís da Silva. Foi muito significativo poder viver esse momento, justamente em Pará de Minas, cidade onde nasci”