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Ano 42 - Nº 2146

30 de Outubro de 2026

2146

QUANDO A CASA CONTA HISTÓRIAS JÁ VIVIDAS

Colunista

30/10/2026
QUANDO A CASA CONTA HISTÓRIAS JÁ VIVIDAS

Empresários da construção civil e alguns arquitetos encontraram-se na festa de aniversário de um empresário no ramo de decoração, realizada em seu casarão de extremo bom gosto. O amplo jardim interno e a piscina de borda infinita arrancaram suspiros dos restritos convidados. Aquela turma, diga-se de passagem vem erguendo prédios e condomínios de negáveis beleza e modernidade, ajudando a transformar aquela cidade. Todos eles tinham feito, juntos e recentemente, uma viagem, para participar das últimas tendências de arquitetura do mundo. O grande evento foi realizado pela União Internacional de Arquitetura (UIA), em Barcelona/Espanha. E agora, de volta ao Brasil, o assunto naquela era agradável, com a maioria dos convidados exibindo em seus celulares de última geração as moderníssimas tendências, realmente belas, da arquitetura mundial. Certa hora, o anfitrião desceu parede abaixo um enorme telão, para as pessoas visualizarem juntas todas aquelas maravilhas. E assim, um a um, os celulares foram conectados ao projetor, ampliando, enormemente, todas as belezas arquitetônicas vistas na Europa. Passada aquela euforia e com os convidados já calibrados com legítimo escocês, falou uma respeitada arquiteta de outra cidade:

- Dizem que o melhor de um congresso não acontece durante as palestras, dentro do auditório, mas na troca de informações pelos corredores do hotel. Concordo plenamente! Dessa vez, constatei que os europeus não dão a mínima para o mobiliário deixado de herança por seus pais, avós e tios. Vendem tudo para os brechós, que lá são conhecidos como Mercado das Pulgas. Aqui no Brasil isso é totalmente diferente, pois nossas casas são montadas com histórias de outras gerações.

O mais jovem arquiteto da turma sorriu e concordou:

- Fala não!!! Em cada casa que eu entro a trabalho aqui há sempre uma cadeira da vovó, uma baixela da titia, uma prataria do bisavô, um lenço bordado da tia solteirona, uma ou mais obras de arte de algum parente, mas eles nem sabem que artistas as pintaram (riso).

O experiente engenheiro explicou:

- Essas coisas de família são a indicação de um tempo transformado em memória. É assim que os vivos dialogam com o tempo dos parentes falecidos, criando, com a ajuda dos objetos herdados, uma participação em histórias das quais eles nunca fizeram parte...

Nessa hora, disse a arquiteta com mais tempo de estrada:

- Verdade e falo por mim mesma que é nos álbuns velhos da minha família que eu acabo vivendo aquilo que eu não pude ver e viver...

E você, tem o hábito de colecionar as coisas herdadas da família?

UMA BOA LEITURA!

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